segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Atelier Zanutti: arte, cultura, histeria e fanatismo sem perder o foco! (einh?)



Eu vi Ferreira Gullar, não é figura de linguagem, não é ficção, não estava sonhando...Eu vi mesmo, ali, na minha frente, com sua postura de poeta, seus respeitáveis cabelos brancos e congelei, observei, quando dei por mim lembrei que queria um autógrafo, uma foto, sabem quase gritei de histeria, tipo uma menina quando vê Luan Santana, mas não fiz nada, não conseguia ver nada, a bolsa em meu ombro parecia invisível, caneta e papel sumidos e evaporados, o mundo congelou e ele foi se afastando devagar como névoa, rápido como uma gota de orvalho cai de uma folha...Ele sumiu, procurei, não vi de novo, acho que só eu vi...
As pessoas andam em uma exposição sem vê-la...Passam pelos quadros e gravuras e tudo tão rápido como se fosse uma obrigação cultural não um prazer sensorial. Eu não, definitivamente não! Eu entrei em cada quadro, xilogravura de Escher, me vi como as formigas do quadro, andando em círculos pelo infinito, rodando como jacarés pequeninos rodando, rodando e de repente eu também era formiga  do e-poema formigueiro de Gullar formiga que embaralhada nas letras está no formigueiro...
Eu era eu mesma figura notável e importante para mim e meia dúzia de outros loucos que vêem em mim algo que às vezes nem eu vejo. E no segundo depois que entrei na exposição eu que era uma profunda admiradora de figuras em livros e telas de computador passei a fazer parte da arte, estava lá há 5cm de papéis e telas que um gênio criou...Eu mera "juntadeira" de informações, "inventadeira" de modas e artes que não tem um terço da genialidade dele (Escher) e mera "escritora" de frases que dentro do meu caos fazem sentido, mas que não tem a mesma harmonia dos poemas sólidos, abstratos, neutros translúcidos, ai,ai...Os poemas de Gullar.
Então saí de lá assim meio que nas nuvens:
Como uma fã que vê um ídolo...
Como uma leitora que vê as mãos que escreveram o livro...
Como uma criança que vê Papai Noel...
Como quem morre e vê Deus...
Como uma mãe que vê seu filho pela primeira vez...
E estou assim até agora...

Assim...


Um instante

Aqui me tenho
como não me conheço
          nem me quis

sem começo
nem fim

          aqui me tenho
          sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presentesou apenas um bicho
           transparente








Traduzir-se
                    Uma parte de mim
                    
é todo mundo:
                    
outra parte é ninguém:
                    
fundo sem fundo. 
                    Uma parte de mim
                    
é multidão:
                    
outra parte estranheza
                    
e solidão. 
                    Uma parte de mim
                    
pesa, pondera:
                    
outra parte
                    
delira. 
                    Uma parte de mim
                    
almoça e janta:
                    
outra parte
                    
se espanta. 
                    Uma parte de mim
                    
é permanente:
                    
outra parte
                    
se sabe de repente. 
                    Uma parte de mim
                    
é só vertigem:
                    
outra parte,
                    
linguagem. 
                    Traduzir uma parte
                    
na outra parte                    - que é uma questão
                       de vida ou morte -
                       será arte?

Fonte: http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/
Fita de Moebius II (formigas), 1963 - Xilogravura - 45,3 x 20,5 cmRépteis, 1943 - litografia - 33,4 x 38,5 cm

Vejam uma pequena, mínima, parte do que vi... Não sei se são os olhos do amor, mas Escher é uma força da natureza.


Está no Centro cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro até 27 de março.


Fui também na exposição sobre Coralina no mesmo local, até 13 de março. Gosto da doçura e pureza de seus versos, da magia que usava para falar de coisas simples...



“Humildade

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.” 


Assim eu vejo a vida  

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
Cora Coralina

Um comentário:

Alcione e Bere Cibiac disse...

Priscila,
Obrigado por visitar nosso blog.
Achei muito legal seu filho de 9 anos gostar de poesia. Quanto à exposição do Escher realmente está fantástica e pensar que a maioria dos trabalhos são xilogravuras, torna tudo mais incrível ainda!
Parabéns pelo seu blog! Vou olhar com carinho.